“Guaíba não pode ficar à sombra de uma fábrica”, dizem militantes do PSOL e ativistas

O PSOL de Guaíba se reuniu no último domingo (29) para discutir projetos políticos e as necessidade da região com o deputado estadual Pedro Ruas e com a vereadora de Porto Alegre Fernanda Melchionna. O grupo foi formado por cerca de vinte militantes e também ativistas com trajetórias em áreas como cultura, ambientalismo, ocupações e educação.


Os moradores de Guaíba e militantes do PSOL destacaram como uma das questões urgentes as dificuldades trazidas pela falta de uma maternidade na região. Desde o fechamento do Hospital Nossa Senhora do Livramento em 2015, o município se transformou em um local em que ninguém nasce em maternidade pública, colocando em risco as vidas de mães e crianças. Apesar de ter 100 mil habitantes, Guaíba possui o maior déficit de leitos hospitalares do Rio Grande do Sul.

O vice-presidente do diretório municipal do PSOL Guaíba, Bruno de Azambuja Silveira, salientou a importância de pensar um projeto de desenvolvimento para a cidade que fuja do estabelecido até agora. “A ampliação da CMPC Celulose Riograndense é um exemplo de um tipo de desenvolvimento que apresenta prejuízos graves na vocação ambiental e turística da cidade. Guaíba não pode ficar à sombra de uma fábrica”, diz. A empresa chilena CMPC vem sendo alvo de constantes denúncias dos moradores por problemas ambientais, de mobilidade urbana e questões sociais. “É uma demanda urgente a adequação das atividades da fábrica, que desde o inicio da operação já recebeu pelo menos nove multas ambientais e estão causando impactos socioambientais como ruído, resíduos e odores”, explica o engenheiro ambiental e coordenador da Associação Amigos do Meio Ambiente (AMA), Eduardo Raguse.

Silveira salienta que a perda da balneabilidade do rio foi um rompimento com a identidade de pertencimento da população com a cidade. “Gradativamente precisamos esvaziar a dependência desse modelo verticalizado ligado à instalação de uma de papeleira com essas proporções existente dentro de um perímetro urbano. É um caso raro no mundo. Devemos pensar em outras formas de desenvolvimento”, diz.

Vereadora Fernanda Melchionna e deputado estadual Pedro Ruas do PSOL

A militante do PSOL e música Denise Rosa afirmou que é necessário ter uma visão mais popular sobre a valorização da cultura na cidade. “Precisamos apoiar a cultura popular, apoiar o espaços já existentes como o espaço Biguá, que há 10 anos trabalha com o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal”, conta. Ela também entende que é necessário ter um projeto de cultura que se conecte com a população. “Não podemos deixar que os espaços mais populares sejam ocupados pelos setores reacionários”, defende.

O grupo relatou em consenso a necessidade de os guaibenses repensarem a identidade enquanto cidadãos do município para se descolar da visão restritiva de que a única coisa que tem valor por lá é a fábrica de celulose. “Temos recursos naturais e culturais que poderiam ser utilizados para o turismo e outras possibilidades de desenvolvimento que hoje são ignoradas. Podemos mudar isso”, afirma Bruno.

A identidade cultural da cidade também foi tema da fala de Fernanda. Ao chegar na cidade, a vereadora passou pela Avenida Castelo Branco (uma das principais de Guaíba) e lembrou do trabalho do PSOL em Porto Alegre para mudar o nome do logradouro homônimo para Avenida da Legalidade e da Democracia. “Esse tipo de trabalho, que mexe com as coisas simbólicas dos lugares, é fundamental e uma função dos parlamentares. Em um país que não julgou os crimes da ditadura, esta questão não é perfumaria”, disse.

Os militantes também ressaltaram a falta de representatividade feminina, jovem e diversa na Câmara de Vereadores da cidade, ocupada na sua quase totalidade por parlamentares de direita e desconectados das lutas sociais. Em complemento a essa visão, Fernanda explicou que a política tradicional não tem se estabelecido como um espaço do povo no Brasil, e citou como exemplo o fato de que enquanto acontecia a Copa do Mundo deste ano, deputados aproveitavam para aprovar um projeto que libera o uso de venenos nas lavouras, por pressão da bancada do agronegócio. “Tem um ceticismo real de quem apoiou os políticos hoje no poder e viu que não dá mais. Ao mesmo tempo em que o ‘velho’ morreu, a alternativa nova ainda não nasceu para essas pessoas. E nesse espaço, nós do PSOL temos a oportunidade de fortalecer um polo que valorize a democracia e as lutas sociais”, finalizou.