A ascensão de bilionários no Brasil é sintoma de um sistema imoral que concorda que a riqueza e luxo de poucos siga se perpetuando às custas da fome e desemprego de milhões. Como pode um Brasil mergulhado em uma forte crise econômica, com queda do consumo das famílias e crescimento pífio de menos de 1% do PIB ter 26 novos bilionários? Essa crise não é para todos.

Mais uma vez fazemos jus ao título de campeão em concentração de renda do mundo. Dono da maior cervejaria do mundo (Ab InBev), Jorge Lemann está no topo da pirâmide dos bilionários da Revista Forbes com patrimônio de R$ 104 bilhões. Enquanto isso 54,8 milhões de brasileiros (26,5% da população) vivem na linha de pobreza com renda mensal de 406 reais (IBGE/2017) e 40 milhões de brasileiros estão na informalidade. Entre outros super-ricos estão o banqueiro Joseph Safra e o empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan e bolsonarista convicto, que estreou na lista de bilionários brasileiros na 36ª posição.

A paisagem urbana com, cada vez mais, moradores em situação de rua, camelôs e ambulantes ocupando as calçadas e jovens, em sua maioria negros, trabalhando à serviço de aplicativos de forma precarizada e sem garantia de direitos mostra que a fortuna desse 1% mais rico é construída sob a exploração de 99% da população mais pobre. O Brasil tributa muito pouco ou quase nada os os banqueiros, é um dos únicos países que não tributa dividendos (pagamento pelo lucro gerado) de acionistas e é onde há isenções tributárias bilionárias para importação e venda de agrotóxicos. Sem falar da alta parcela da renda dos mais ricos que é isenta de Imposto de Renda.

Dados do Relatório Global da Desigualdade, de 2018 mostram que o 1% mais rico no Brasil detém cerca de 30% da renda nacional e os 50% mais pobres da população ficam com apenas 13,9%. Isso atesta que as reformas neoliberais propostas nos últimos anos atendem à lógica de manter intacto os interesses dos de cima. Com o debate sobre a Reforma Tributária na Câmara Federal precisamos discutir a raiz desse problema, propor uma tributação mais progressiva, fazendo com que quem ganha mais, pague mais. A proposta de regulamentação do imposto sobre as Grandes Fortunas e a redução de impostos sobre consumo e aumento sobre patrimônio e renda são algumas das propostas apresentadas pelo PSOL.

A agenda neoliberal de retirada de direitos e corte nas áreas sociais, que se apoia em um projeto autoritário de poder, em curso no Brasil, aponta uma saída para a crise que só beneficia os que estão no topo da pirâmide da riqueza. Ao dizer que bilionários não deveriam existir significa que é preciso enfrentar os interesses dos poderosos e lutar pela necessária, justa e igual distribuição da riqueza no país. O Brasil tem potencial para enfrentar a crise, mas precisa implementar medidas para fazer com que os verdadeiramente ricos paguem a conta.

Artigo originalmente publicado: https://www.sul21.com.br/colunas/fernanda-melchionna/2019/10/bilionarios-nao-deveriam-existir/

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