A Carris parou três dias, mas até quando Porto Alegre vai andar?

POR FERNANDA MELCHIONNA (Coluna publicada no dia 06/12/12, no portal Sul21)

O descaso com o transporte coletivo em Porto Alegre é certamente uma das causas da cidade estar se tornando cada vez mais inviável e engarrafada. POA está entre as capitais com o maior valor da passagem, que sobe sempre acima da inflação e que nos últimos 22 anos funciona sem qualquer licitação. Sem contar na caixa-preta do transporte coletivo, uma vez que a prefeitura nunca auditou as planilhas de aumentos tarifários, ao contrário, sanciona aumentos excessivos e a população paga a conta de uma tarifa abusiva e um transporte de qualidade duvidosa. Além disso, a lógica dos lucros máximos dos consórcios privados e o sucateamento da Carris faz com que a frota seja diminuta e as pessoas esperem muitas vezes quarenta minutos para pegar seu ônibus, sendo que a superlotação das linhas e os atrasos são fatos cotidianos para os usuários do transporte coletivo.

O metrô – pauta que sempre aparece na campanha eleitoral e que segue sendo uma “miragem no deserto” – transporte extremamente necessário para desafogar o trânsito, diminuir a poluição e garantir rapidez no deslocamento dentro da cidade, ainda está longe de ser realidade. Talvez em 2017, quando os problemas viários estarão certamente mais agudos, caso não seja mudada a lógica de priorização do transporte individual.

A execução do Plano Diretor Cicloviário é uma piada, passada a eleição a prefeitura chegou a questionar a constitucionalidade da aplicação de 20% da arrecadação das multas para a construção de ciclovias e ciclofaixas. O plano prevê 495 km de ciclovias e a prefeitura comemora os ínfimos 11,4 quilômetros (contando com ciclofaixas) que existem em Porto Alegre, isso sem entrar nos méritos da qualidade das ciclovias.

O necessário transporte hidroviário, nascido de uma lei em 1989 de autoria do vereador Pedro Ruas, ainda não saiu do papel.

Diante deste quadro gravíssimo da mobilidade urbana, a prefeitura ainda sucateia a melhor empresa de transporte que é pública, a Carris.

Nesta empresa pública sobram Cargos em Comissão sem qualificação e faltam uniformes para motoristas e cobradores; sobra assédio moral aos trabalhadores e faltam peças para manutenção da frota, fato que acarreta em menos frota e mais atrasos nas linhas de ônibus; sobra apadrinhamento político e faltam banheiros. Logo, a greve que durou três dias dos trabalhadores da Carris demonstrou o quanto é importante o transporte público e seus trabalhadores, além de evidenciar uma grave crise de mobilidade urbana em POA.

Os verdadeiros culpados pela crise estão no Paço Municipal e na direção da Carris, pois a greve é o último recurso de uma categoria para ser ouvida e de fato ter uma negociação sobre salário e condições de trabalho. Este movimento explicitou o quadro dramático de sucateamento da Carris, de uma gestão autoritária que não incorpora os trabalhadores como parte da administração da empresa, além de descumprir promessas da própria direção da Carris, como o bônus motivacional que seria pago em novembro. A garantia do bônus foi uma das conquistas da greve forte e legítima da categoria.

Certamente Porto Alegre não é um caso isolado. As cidades brasileiras estão cada vez mais inviáveis. Mas só se tornarão cidades mais humanas, sustentáveis e que respeitam seus cidadãos se houver um amplo movimento social de unidade entre trabalhadores, estudantes e população em defesa do transporte coletivo público e de qualidade. A união sempre faz a força.

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