De tempos interessantes para novos tempos

Artigo publicado no Portal Sul 21.

 

“Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”. Assim dizia um cartaz de uma jovem paulista em uma foto que foi veiculada nas redes sociais e, posteriormente, na imprensa. E o melhor: ela está coberta de razão, mesmo em uma análise preliminar da história do tempo presente.

O Brasil está mudando em um aspecto fundamental, a retomada das ruas por parte da juventude e a mobilização como método das grandes transformações. A pauta: o aumento abusivo das passagens de ônibus. Seguindo o exemplo de Porto Alegre – em que a luta gigante da juventude, amplamente apoiada pela população junto com a ação jurídica e política do PSOL, conquistou a redução da tarifa de ônibus – outras cidades se levantaram. Goiânia também conquistou. Mas o fato da semana foi a entrada em cena de milhares de jovens paulistanos. Mesmo diante de uma brutal repressão policial, o movimento cresceu, ganhou apoio popular e derrotou a imprensa defensora da elite e seus nojentos comentários.

As redes sociais furaram o bloqueio, mostraram a verdade, as balas de borracha, o gás lacrimogêneo, as prisões arbitrárias e a união PT (Haddad) e PSDB (Alckmin) de braços dados em Paris, para reprimir e criminalizar o movimento social. Pior ainda foi o ministro da Justiça, que deveria estar se explicando pelo assassinato do indígena Osiel no MS, e, ao invés disso, colocou as Forças Armadas à disposição para investigar e reprimir o movimento. A luta começa com a passagem, mas temas não faltam para aumentar a indignação e ganhar o apoio do povo, seja o aumento brutal do custo de vida, a corrupção impune dos caciques da política brasileira, a ausência de democracia real para tratar os temas da cidade e os direitos civis da população, a violenta repressão policial e os investimentos bilionários nas obras da Copa.

Toda esta indignação, combinada com a solidariedade a São Paulo e Rio de Janeiro (que no primeiro protesto, em 6 de junho, também presenciaram enorme violência), fez com que atos estejam sendo realizados e programados em dezenas de cidades no Brasil e no exterior.

O fato é que os jovens voltaram às ruas e nada seria assim se a conjuntura mundial não tivesse entrado em uma curva histórica distinta, com as respostas do movimento de massas à crise econômica mundial. Em 2011, a Primavera Árabe empoderou o movimento e em poucos dias derrubou ditaduras de décadas no Egito e na Tunísia, inspirando os indignados na Espanha, o movimento contra a austeridade em Portugal, o Ocupy Wall Street nos EUA, os jovens e trabalhadores na Grécia, que resistem aos planos da Troika (Banco Central Europeu, Banco Mundial e FMI). Recentemente, na Turquia, a luta por uma das últimas áreas verdes de Istambul rapidamente virou um chamado pelo Fora Erdogan (primeiro-ministro do país). No Chile, em que há anos a juventude toma a dianteira na luta pela educação pública, mais de 200 mil jovens estiveram juntos novamente em defesa da pauta, na semana passada.

Mais cedo que tarde os ventos internacionais estão soprando no Brasil, em um processo ainda em aberto. Das primeiras conclusões, pode-se dizer que a melhor lição está sendo tirada: a história se constrói com homens e mulheres que buscam escrever novos rumos para a humanidade e resolvem, apesar do “transtorno”, mudá-la e afirmar que nada será como antes.

Os grandes processos de luta que foram rupturas históricas, como o maio de 68 (com a conquista de enormes direitos civilizatórios) e as revoluções democráticas de 1989 (que derrotou a revolução capturada por uma burocracia stalinista que pensava em si, antes de qualquer necessidade da classe). Estes dois processos nunca tiveram suas consignas plenamente conquistadas. Ainda nos cabe muita mobilização e maturação do movimento para realizá-las.

De qualquer maneira, a ocupação da esfera pública e a mobilização como método são imprescindíveis para que possamos ultrapassar a barreira dos tempos interessantes para, de fato, construir novos tempos. O desafio é, a partir das lutas imediatas, construir as pontes para uma plataforma dos 99% da população que vivem do trabalho e são governados pelos que defendem os interesses dos 1% que vivem de explorar o restante. Como diria uma das palavras de ordem dos jovens “pinguinos” chilenos, “organiza tua indignação”!!!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *